quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Odete, uma Beirã de Sobral Gordo


Odete Francisco embora tenha nascido na Cova da Piedade (Almada) há 39 anos, o seu coração cedo tornou-se beirão. Com apenas 3 anos de idade foi viver para uma pequena aldeia, do concelho de Arganil. É um lugar onde “eu sinto-me como se de verdade nascesse, em Sobral Gordo .Tive uma infância muito feliz, com algumas privações e limitações, mas sempre com muito amor e muita compreensão”, recorda com emoção. A sua mãe trabalhava no campo, embora nunca tenha aprendido a ler, enquanto que o seu pai trabalhava fora da aldeia, como motorista de carros de aluguer.


Aprendeu as primeiras letras na aldeia e considera-se privilegiada por ter concluído a Primária, antes da escola encerrar de vez. Prosseguiu os seus estudos em Côja, uma aldeia ao lado para fazer o 5º e o 6º anos.E ficou por ali. As dificuldades económicas assim o decidiram: "para fazer o Secundário tinha que ficar em Arganil durante a semana"…

Aí ficou durante 17 anos, até que o seu irmão casou e levou-a a morar com ele para Almada. Foi “para me dar outra vida, que não a agricultura”,explica. Com essa mudança, tem uma segunda oportunidade para concluir o 9ª ano, enquanto trabalha numa fábrica de confecções em Santa Marta de Corroios (Seixal). Aí ficou durante catorze anos, até a fábrica encerrar. Através do fundo de emprego foi trabalhar para uma escola, como auxiliar de Acção Educativa, onde aproveita e frequenta o programa das Novas Oportunidades para completar o 12º ano. Entretanto, casou e teve uma filha, que tem agora 16 anos de idade.Curiosamente o seu marido, embora tenha nascido em Almada, tem raízes muito próximas de Odete :“os meus sogros são naturais da Fornea (Piódão)”.

Mesmo longe, nunca se esqueceu da sua terra: “A minha relação com a Beira é muito, muito forte. Adoro, venero e respeito tudo o que tem a ver com a minha região geográfica. Defendo-a com unhas e dentes. É em Sobral Gordo que eu passo as minhas férias, o Natal a Páscoa. Todo o tempo livre que tenho é para a minha aldeia que eu me direcciono”,afirma Odete com muito orgulho. Depois de ter saído de lá, procurou acompanhar a realidade da sua aldeia de uma forma bastante activa: desde os 18 anos  faz parte dos Corpos Gerentes da Comissão de Melhoramentos de Sobral Gordo. Ao longo destes anos desempenhou todos os cargos da Comissão: desde vogal, secretária da direcção e da assembleia-geral, a presidente da direcção.



Mas o seu maior desafio foi a criação de um Grupo Folclórico de Sobral Gordo, em 2003: “eu e dois amigos decidimos formar um grupo folclórico. Como(…) havia algumas pessoas que tocavam concertina e instrumentos de cordas, tipo viola, bandolim e banjo, achámos que estavam reunidas as condições mínimas para formar o grupo. Formou-se, cresceu e chegámos onde estamos hoje.” O dia 15 de Agosto de 2003 foi um dos dias mais marcantes para si e para a aldeia: “É as lágrimas de alegria derramadas, cheias de orgulho, satisfação e felicidade, quando o Grupo Etnográfico actuou pela primeira vez”, diz Odete emocionada.

O apoio incondicional e a grande força de vontade e determinação dos habitantes e de simpatizantes, incluindo a sua filha e os seus sobrinhos, motiva Odete a fazer algo para melhorar a realidade da aldeia.
Por tudo isso, Odete sente-se uma mulher beirã realizada e feliz a todos os níveis!

terça-feira, 14 de setembro de 2010

´Parabéns Natália!

Sabugal é a terra onde nasceu, estudou e viveu toda a sua vida, ao longo destes 50 anos. Parece uma eternidade! Tem uma experiência de vida para nos contar:

Estudou até ao 7º ano do secundário ( equivalente ao 11º ano da nova geração), quando estava a completar os seus 17 aninhos. Terminada essa etapa tinha uma mão cheia de sonhos, como qualquer moça da sua idade: gostava de ir para a universidade estudar História, a sua grande paixão. Mas a vida quis ser sua madrasta: inesperadamente faleceu o seu pai e teve que enfrentar a vida real. Agarrou as rédeas do negócio de família, o Café Riba Côa , juntamente com a sua irmã e a sua mãe, e teve que deixar de lado os sonhos. Tinha que trabalhar para sustentar a casa, mas não se sentia realizada.


Aos 20 anos recebeu uma proposta irrecusável: um tio convidou-a para ir viver para a Argentina. A ideia de conhecer outras pessoas e outras realidades, motivou-a aceitar o convite. Quando lá chegou tudo era novo. “Foi uma experiência incrível e quase lá ia ficando...mas já algo me prendia ao Sabugal!”. Passados 3 meses, lá estava ela de novo em Sabugal, cheia de energia para dar e vender. Retomou a sua vida que tinha deixado para trás, assim como regressou ao convívio do grupo de jovens da sua Paróquia .Tudo parecia igual. Até que um dia conheceu um belo rapaz, o Romeu, aquele que iria ser o seu companheiro para toda a vida. Namorou , casou e teve filhos. Surgiu uma mudança na sua vida profissional, que a obrigava a deslocar-se para a Guarda. Optou pela família e dedicou-se exclusivamente a ela durante algum tempo.

Mas não podia ficar quieta. Logo que pode procurou conciliar a vida familiar com a profissional. “Além de contactar com muita gente...geria o meu próprio tempo, por isso, consegui ser uma Mãe presente, pelo menos até os filhos irem para a Universidade” , diz a Natália. Tornou-se empresária de vários ramos e até chegou a representar muitas empresas.

Chegou a ser fazer parte da Assembleia de Freguesia, “a única mulher... primeiro vista como «uma pedra no sapato»”. Teve que “provar que estava a ocupar um lugar alcançado com toda a legitimidade e ocupado com toda a dignidade!”

Assim foi vivendo em Sabugal, procurando sempre um bom relacionamento com as pessoas da terra. Foi conquistando o respeito e o carinho de todos, tanto que é tratada e conhecida por Natalinha.

No entanto, sentia-se desenquadrada havia algo que escapava : queria fazer algo que realmente a realizasse profissionalmente .Até que um belo dia a sua atenção virou-se para uma casa no Largo do Castelo. “ A placa «VENDE-SE» afixada nas paredes era um apelo à nossa imaginação... para o tal projecto de apoio ao Turista e com produtos que divulgassem o nosso Concelho! Conseguimos comprá-la!”, diz entusiasmada. Conheciam bem pedra sobre pedra daquele Largo, pois o seu “marido nasceu à sombra do Castelo(…). Era um Largo com o nosso imponente Castelo de Cinco Quinas...que estava de braços abertos para receber os visitantes, mas que para além do Posto de Turismo com horário limitado... não havia mais nada”.
Foi um sonho que demorou 10 anos a concretizar-se. A vida deu-lhe de presente o seu sonho de menina: o curso não pôde ter, mas conseguiu, sem saber, uma Casa recheada de História!

A sua casa tornou-se emblemática, pelos tesouros que lá guarda e pela pessoa que está à frente. O seu entusiasmo e amor à História parece contagiar a quem lá passa: “As nossas raízes históricas estão aqui na Casa do Castelo...para serem partilhadas...”, diz com sorriso .

Essa pergunta não lhe fiz, mas creio que agora se sente, naturalmente feliz e realizada. Depois de tantos anos descobriu a sua verdadeira vocação. Sem dar por isso, assumiu o papel, embora simbólico, de embaixadora das terras Sabugalenses.

Nada como terminar em beleza com uma citação de Fernando Pessoa:

"Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado alguma vezes,
mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo.
E que posso evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver
apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.

Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e
se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar
um oásis no recôndito da sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.

Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um "não".
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.

Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo..."

Fernando Pessoa

Natália faz hoje precisamente 50 anos. E em homenagem a ela, estou a publicar hoje , e não amanhã, como é habitual todas as 4ª feiras. Até para a semana, com uma nova mulher beirã!

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

De Sabugal: Natália Bispo


Foto Retirada da Capeia Arraiana

Natália Bispo é uma sabugalense que tive o prazer de conhecer há cerca de dois anos atrás.Estava a iniciar o trabalho de investigação, que deu origem ao Livro “Aldeias Históricas de Portugal -Guia Turístico”.Conheci--a através da sua casa, a Casa do Castelo. Entrei lá com o intuito de saber mais sobre a região e em particular sobre Sortelha, a Aldeia Histórica que se encontra inserida no Concelho de Sabugal. Sem me conhecer de lado nenhum, abriu as portas da sua casa e do seu coração. É uma honra para mim poder partilhar com todos os meus leitores a história da Natalinha e da sua luta diária para manter esta casa tão especial.


Em 2007, Natália Bispo viu o seu novo espaço a abrir, finalmente, as suas portas. Nem podia acreditar, não depois de tantas surpresas que a casa lhe tinha dado:

A casa estava degradada e necessitava de obras, quando a comprou. Com um projecto aprovado e apoiado pelo FEOGA Leader+, tudo estava a postos para remodelar a casa, pedra sobre pedra, para  receber aí os turistas e promover a região. À medida que avançavam os trabalhos, algo de surpreendente aconteceu. Encontraram várias relíquias: uma ara romana e um vestígio que se pensa tratar-se de um “Aron Ha Codesh” judaico (armário da lei), provavelmente do séc. XIV. Seria um local de oração para os judeus, onde também guardavam o “Torah” (Livro da Lei). Nasceu a hipótese de ter sido uma casa de cristãos novos ou até mesmo uma sinagoga camuflada, que merece ser estudada por peritos e admirada por toda a comunidade. A emoção foi grande com essas grandes descobertas.

Dessa forma Natália descobriu que tinha em mãos um espaço único com um valor e importância histórica incalculável. Para além das lembranças, peças de artesanato, velharias e dos livros, expõe belíssimas peças de museu e ainda dispõe de um simpático restaurante, que serve apenas por marcação. Em poucos meses transformou-se numa referência cultural para a Cidade de Sabugal e para a Região: são muitos os turistas que se deslocam ao Sabugal para verem o armário da lei.

Na próxima semana vamos descobrir o que a motivou para abrir um projecto desta natureza e como foi o seu percurso de vida até aqui.

Até lá, para saber mais sobre a Casa do Castelo, consulte aqui o site oficial Se está muito curiosa e não aguenta até à próxima semana para saber mais da sua história,, sempre pode deslocar-se até Sabugal para conhecer a Natália pessoalmente.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Uma entrevista...na TV



Gostava de ter um feed-back vosso!

Um grande beijinho a todos e até Setembro!

quarta-feira, 28 de julho de 2010

A minha vida mudou com as Aldeias Históricas (2ª parte)



A espera era demasiado longa. Não aguentávamos esperar tanto para iniciar o projecto. Até que num belo dia, em Belmonte, conheci a Graça, uma corajosa senhora que decidiu trocar a vida estressada de Lisboa, pela pacata vila de Caria. Apostou no património que herdara do seu avô e decidiu transformá-la numa Casa de Turismo Rural, o Passado de Pedra. Quando lhe disse que estava à espera de apoios para concretizar o meu projecto, disse-me:

“Não podes estar à espera de apoios. Deves arriscar e seguir em frente, com os meios que tiveres ao teu alcance,. O país tem que ter iniciativa e não pode estar à espera de dinheiro e de fundos da União Europeia. Assim, ninguém consegue fazer nada. Olha o meu exemplo: remodelei a minha casa de Turismo., apenas com os meus recursos e hoje não devo nada a ninguém.” Fiquei a matutar naquilo

Decidimos seguir o conselho dela. Procurámos outros apoios mais rápidos e eficazes que pudessem dar capacidade de resposta para o que verdadeiramente necessitava a empresa. Contratámos 3 jovens licenciados desempregados (A Lena, o Tiago e a Vera), ao abrigo do programa do Inovjovem e começámos a concretizar este projecto em Setembro de 2009.

Com uma equipa jovem, qualificada, acreditámos que o nosso projecto tinha tudo para ser concretizado. Investimos o nosso tempo com muito trabalho, dedicação e sacrificando alguns momentos em família.

A força e vontade de seguir em frente, ultrapassando todos os obstáculos e dificuldades que fomos encontrando, deveu-se ao facto de acreditar na magia que existe nessas aldeias Históricas, capazes de emocionar, como emocionou os meus filhos, quando visitaram pela primeira vez a aldeia de Marialva.

E o resultado está à vista: no dia 10 de Junho de 2010 fiz o Lançamento do guia turístico das Aldeias Históricas de Portugal na cidade de Trancoso.

Brevemente estarei a apresentar o livro nas principais cidades do país. Quem quiser pode espreitar aqui o primeiro capítulo...sobre Piódão.

Uma nova etapa da minha vida começa agora, depois de tantos anos à deriva...



E Boas férias !

Voltarei com novas novidades em Setembro!

quarta-feira, 21 de julho de 2010

A minha vida mudou com as Aldeias Históricas (1ª Parte)



Tudo começou há cerca de três anos atrás. Estava à espera de uma oportunidade para ter uma carreira, como docente de Português e de História. Em 10 anos, apenas tinha conseguido leccionar durante 4 anos. A espera tornara-se demasiada e já não aguentava continuar na expectativa de ser, ou não, contratada para substituição a curto prazo. Não podia continuar assim. Precisava de fazer algo para mudar a minha vida, mas não sabia o quê, pois toda a minha vida tinha sido programada para ser professora, como a minha mãe.

Até que um dia, numas férias de Verão, surgiu a ideia de enveredar pela área da promoção do Turismo. “Empurrada” pelo meu marido, passei a ser empresária em nome individual e aventurar-me, com a marca “Susitour”. Durante cerca de nove meses, tentámos promovemos férias no Algarve, quando a crise estava a dar os primeiros sinais. Não estava a correr bem e já estava decidida a acabar com tudo, por muito que me custasse dar esse passo, depois de ter aprendido tanta coisas em que não imaginava fazer, como entrar no mundo de bloggers.

Não me agradava desistir, não depois de ter decidido deixar o ensino. Parei para pensar e analisar a minha vida. Dela retirei uma conclusão: estava a seguir o caminho certo, mas em sentido contrário. Descobri que a minha verdadeira missão estava à minha frente, mas nunca a tinha enxergado. O Algarve já todos conhecem, ao contrário da minha região, a Beira. A região que realmente precisa de ser promovida e valorizada é a Beira, em particular a Mêda, minha terra Natal, onde se encontram alguns tesouros, que merecem ser valorizados e estimados como tal. As aldeias de Marialva e de Longroiva, fazem parte dessas relíquias, pela sua História, Património e pela ligação que eu tenho com elas, das memórias de infância.

Algo me dizia que deveria seguir por aí, começando por explorar a ideia de Marialva, como uma aldeia classificada como Aldeia Histórica de Portugal. Para isso tinha que conhecer o seu conjunto das 12 Aldeias Históricas: confesso que desconhecia grande parte delas. Olhando com olhos de uma verdadeira turista, descobri que havia muito para fazer, especialmente, no que toca na sua promoção turística. Os 8 volumes da Carta de Lazer da Inatel que divulgaram as Aldeias nos anos 90, estavam esgotadas. Não existia um guia turístico que contemplasse as 12 belíssimas aldeias. Estava perante uma oportunidade, que tinha tudo a ver comigo.

Procurei informar-me sobre eventuais apoios para esta ideia. Soube que iria abrir em finais de 2009 o processo de candidatura do Provere das Aldeias Históricas. Eu e o meu marido criámos a empresa na hora com o nome “Olho de Turista” e apresentámos a nossa candidatura, bastante ambicioso, à Associação das Aldeias Hist. P. Depois de pré aprovado pela associação esperámos.

( Na próxima semana descubram a segunda parte da minha história de vida)

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Como me tornei "blogguer"! (segunda parte)

Entretanto, em Fevereiro de 2009, criei uma empresa : a Olho de Turista., especializada em Informação turística. Tínhamos alguns projectos em mente, um dos quais a criação de um cartaz cultural de eventos na Beira Interior: as festas e tradições;


Atrás desse blogue, veio outro, o da Aldeia da Minha Vida, com o intuito de dar espaço a tantas outras aldeias espalhadas pelo nosso país, desde os Trás-os-Montes ao Algarve. Achei que deveria fazer algo diferente: dar a possibilidade de os bloguistas e não bloguistas, postarem sobre as suas aldeias em simultâneo na Aldeia e nos respectivos blogues. Dessa forma permitiu a divulgação e a interacção colectiva entre todos os participantes. Aqui todos podiam falar sobre uma aldeia nas variadas circunstâncias:

-aquela que nos viu nascer, crescer e que a diversidade da vida, nos obrigou a afastar-nos dela, em busca de sonhos.
- aquelas onde nasceram os pais e avós;
- aquela , que simplesmente , nos apaixonámos , num passeio de domingo pelos recantos do interior.

Fiz esta minha proposta exactamente há uma ano atrás (10 de Junho de 2009). Ao longo desse tempo a Aldeia da minha vida recebeu a participação de vários bloguistas. Foram vários os momentos altos da Aldeia que fizeram a diferença.Conhecemos e interagimos com muitas pessoas de vários pontos do mundo que têm gosto em partilhar experiências vividas nas suas aldeias; Foram abordados vários temas sobre as aldeias e tudo o que liga a elas, como as tradições, costumes, as férias…

Quem nos acompanhou e acompanha, sabe que foi a Aldeia a responsável pelo nascimento do nosso bloguista, o poeta João Celorico, que tanto gosta da sua linda aldeia – Salvaterra do Extremo;

Culpem a Aldeia por colocar no mapa a aldeia da Cabeça, muito bem representada pelo nosso amigo, José Pinto.

Difícil é de esquecer amigos da casa que desde o primeiro minuto abraçaram a Aldeia: Pascoalita, a Elvira , o António Regly, o Sr. Acácio , o Sr Artur Couto, a Cristina, a Eugénia da Cruz, entre tantos outros.


Depois de um ano, achei que seria oportuno reunir todos os nossos amigos para fazermos uma blogagem colectiva diferente: Um encontro de Bloggers.

Depois de tantas emoções partilhadas à volta da Aldeia, criada como uma autêntica sala virtual de convívio, chegou a hora de nos sentarmos, cara a cara, numa sala real, sem teclados nem ratos, como intermediários. Olhos nos olhos vamos escutar a melodia das palavras, que no mundo virtual permanecem quietas no silêncio.

E todos vocês já conhecem como tudo correu na fotoreportagem que pubicámos aqui.


 Para além de bloguista, resta agora revelar quem sou eu...

Na próxima semana irei revelar o  meu outro lado mais "realista"...

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Como me tornei "blogguer"! (primeira parte)

Sou blogger há cerca de dois anos. E posso dizer que, não foi fácil, para quem pouco mexia nessas coisas de emails, internet, a ideia de poder escrever e postar facilmente textos na internet sem a ajuda de informáticos ou de terceiros, agradou-me imenso.
Fiquei verdadeiramente viciada do teclado… quantas vezes ia dormir a pensar nos bloggers…não só de blogues, mas de tudo o que tinha a ver com comunicação virtual em rede.

E o culpado disso tudo foi um grande amigo e colega de faculdade, também ele um bloguista daqueles que não tem papas na língua, no que toca a criticar o verdadeiro estado em que vive mergulhado o país. Trata-se do José Carreira, do blogue “Cegueira Lusa”. Foi ele que me ensinou a criar o meu primeiro blogue : “Susitour, com Olho de Turista” .

Nessa altura ele sabia que tinha enveredado pela área da Promoção Turística e aconselhou-me a criar um blogue, para obter feed-back junto do público em geral.

Entrei num mundo que até aí não imaginava existir. Poder entrar em contacto com outras pessoas, incluindo do outro lado do mundo, a uma distância de um clique, tornava-se aliciante essa tarefa. Graças ao blogue conheci imensa gente, que de outra forma seria improvável algum dia tomar conhecimento delas.

De repente passei de um para quatro blogues. Agora perguntam-me vocês: Porquê tantos Blogues?
Para ter uma desculpa lá em casa? Para entupir os canais da net? Errado!

Descobri que o bloggers era um mundo cheio de possibilidades, em que de dia para dia nasciam blogues novos, com variados temas para todos os gostos.

Passado algum tempo, achei que o primeiro blogue não era suficiente. Tinha assuntos de outra natureza para explorar e partilhar com todos os bloguistas. Nasceu então o Clube das Mulheres Beirãs.decidi dar-lhes um lugar “ao sol”, pelo menos uma vez na vida, homenageando-as no Clube. 

No entanto, tinha outros assuntos também importantes para partilhar, que diziam respeito à minha formação e às minhas raízes : o Património, a História, a Natureza, a Cultura das nossas aldeias.


Estava a amadurecer uma ideia ligada ao projecto das Aldeias Históricas de Portugal, em que Marialva, uma das aldeias do meu coração, se encontra inserida. Localizadas em três distritos da Beira interior (Guarda, Coimbra e Castelo Branco), foram distinguidas 12 aldeias: Almeida, Belmonte, Castelo Rodrigo, Castelo Mendo, Castelo Novo, Marialva, Trancoso, Sortelha, Monsanto, Idanha-a- Velha, Piódão e Linhares.

Nos anos 90 foram bastante divulgadas pelo país fora. Essa euforia depressa se converteu no silêncio. As aldeias corriam um grande risco de caírem no esquecimento. Achei que poderia fazer algo por elas, criando um blogue, sobre as suas gentes, as tradições e a sua História. Esse blogue ensinou-me imenso: para além daquela que já conhecia desde pequena, descobri as outras aldeias, que me prenderam a atenção, no primeiro minuto. A interacção com as pessoas que seguiam este blogue, incluindo do Brasil, motivaram o meu trabalho, feito por amor “à camisola.”


( na próxima semana continuamos)

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Chegou a hora de fazer uma pausa...


Olá a todas!

Este blogue está aberto a todas as mulheres  há ja algum tempo. Depois de terem passado tanos testemunhos de grandes mulheres, chegou a hora  de fazer uma  pausa para reflectir e discutir um pouco sobre a natureza e a razão de ser deste blogue.

 A minha ideia inicial era criar um clube, para convidar várias senhoras da beira a participarem activamente, debatendo temas variados, na óptica feminina. Os meus esforços pareciam ir em vão… face à vida activa de muitas delas, a ideia de preencher o pouco tempo livre agarradas ao computador parecia assustá-las. Compreendia bem a situação delas, mas não desisti da ideia. Tinha que as homenagear de alguma forma. A Força, a Coragem, a Determinação e a Experiência dessas mulheres tinha que ser objecto de admiração e de exemplo para todos nós.


Foi então que decidi dar-lhes um lugar “ao sol”, pelo menos uma vez na vida, homenageando-as no Clube. Ao longo do tempo passaram mulheres beirãs, de várias localidades, cheias de histórias fantásticas! A minha querida avó, há pouco tempo falecida, foi uma das primeiras privilegiadas. Empresárias, donas de casa, camponesas, médicas, professoras, entre tantas outras, mostraram o seu valor como mães, filhas, netas e, acima de tudo, como mulheres, com a partilha das suas histórias de vida.

Mas gostaria de fazer algo mais para reforçar essas homenagens.
O que acham que se poderia fazer mais pelas grandes Mulheres Beirãs?
Gostaria de receber comentários vossos a propósito disso.


Já agora, devem estar surpreendidas com as pequenas mudanças de visual aqui no clube. Gostam ?

Um grande beijinho para todas vocês!

Susana Falhas

quarta-feira, 16 de junho de 2010

FOTOREPORTAGEM - ENCONTRO DE BLOGGERS E LANÇAMENTO DO LIVRO "ALDEIAS HISTÓRICAS DE PORTUGAL - GUIA TURÍSTICO"













À chegada ao Centro Cultural de Trancoso, os bloguistas estavam bem dispostos e juntaram-se para receberem as pastas com a documentação necessária para o Encontro de Bloggers que iria decorrer a seguir.












Sentados confortavelmente, os nossos amigos estavam ansiosos pelo começo do Encontro. A Susana Falhas fez as honras da casa e abriu a sessão com uma intervenção emocionante sobre os seus primeiros passos na grande aventura da Blogosfera e os motivos que a levaram a continuar essa viagem virtual. De seguida, passou a palavra ao bloguista Acácio Moreira sobre a sua amada aldeia Carvalhal do Sapo, o Concelho de Góis e o Vale do Ceira. Quando o nosso amigo acabou o seu relato, a assistência sentia um ratinho no estômago. Passavam poucos minutos das 11 horas da manhã, era altura da degustação da manhã na sala "O Magriço" do Hotel Turismo de Trancoso 4*, onde aguardavam as tão aclamadas iguarias do estabelecimento Avenida Regional (Trancoso).


De volta ao Centro Cultural, retomou-se a sessão com a exposição intitulada "Terras do Forcão" de José Carlos Lages e Paulo Leitão Batista, a dupla da administração do blog Capeia Arraiana; veio a vez do bloguista-realizador Luís Silva com o seu fabuloso documentário "Os Últimos Moinhos" e a importância do cinema na promoção das regiões do Interior. De repente, uma surpreendente visita: António Galante, um fervoroso representante da vila de Idanha-a-Nova! Chegou para nos encantar com as belezas da região da Beira Baixa, onde se situam duas das doze aldeias históricas de Portugal: Idanha-a-Velha e Monsanto.



Por último, exprimiu-se uma grande mulher beirã (bem conhecida do Clube das Mulheres Beirãs, pois já foi nossa entrevistada): Eugénia Santa Cruz. Esta menina, natural de Cortecega (Concelho de Góis) expressou toda a sua paixão pela sua terra e todas as acções feitas para que esta esteja sempre "em movimento".




Ouvem-se aplausos! A Eugénia recebe um lindíssimo ramo de flores, prenda da Olho de Turista. Porquê? Ora, porque fez anos na véspera do evento e merece também toda a nossa consideração. Elevem-se então as vozes para entoar a canção de Parabéns à bloguista Eugénia Santa Cruz e à celebração do 1º aniversário da Blogagem Colectiva do blog Aldeia da minha Vida.

O sino da Igreja tocava 1 badalada: 13 horas. O restaurante "Quinta da Cerca" do Hotel Turismo de Trancoso 4* convidava todos os participantes a dirigirem a sala de refeições para o delicioso almoço-convívio. Sabe o que escondia esses caldeirões de barro preto e as caixinhas de inox? Uma sublime canja de galinha e um suculento cozido à portuguesa à moda de Trancoso, tudo isso acompanhado por pãezinhos caseiros e vinho tinto local. Todos estavam com água na boca... Ui... e quando provamos o pudim de maçã, doce típico da cidade? Fizemos fila, pedindo mais.

E finalmente, pelas 16h00, o momento pelo qual todos esperavam: o lançamento do livro "Aldeias Históricas de Portugal - Guia Turístico"! Júlio Sarmento, presidente da Câmara Municipal de Trancoso, fez-nos a honra de inaugurar a gala, agradecendo a escolha da sua cidade (e simultaneamente uma das 12 aldeias históricas de Portugal -AHP) como local para a apresentação pública de uma obra tão nobre e de extrema relevância para a divulgação da Beira Interior.


Susana Falhas, autora do livro, agradeceu ao edil trancosense e contou-nos comovida como uma bela manhã de Carnaval mudaria o rumo da sua vida, levando-a numa odisseia pelas AHP. Antes de passar a palavra ao Serafim Faro, seu marido e sócio na empresa Olho de Turista, congratulou toda a equipa que a ajudou na concepção e produção do guia.


Tal como prometido, às 17h15, todos prosseguiram caminho até a sala D. Dinis do Hotel Turismo de Trancoso 4* para petiscar os apetitosos produtos regionais da Casa da Prisca (Trancoso) e dos Sabores da Geninha (Figueira de Castelo Rodrigo).


E para terminar o dia em beleza, partimos para a visita guiada à aldeia histórica de Trancoso.



Na manga, tinhamos outra surpresa para os presentes: entrar no Castelo de Trancoso, há tanto tempo encerrado ao público e reaberto há poucos dias. Despedimo-nos, prometendo que haverá outro encontro para o ano. A aldeia eleita será...? É segredo ;)














quarta-feira, 9 de junho de 2010

OS SABORES DA BEIRA INTERIOR

Esta semana, o blog da Aldeia pensou em abrir-lhe o apetite ao divulgar os prazeres gastronómicos da região de Trancoso. Algumas destas iguarias vão estar ao seu alcance no duplo evento “Encontro de Bloggers / Lançamento do livro “Aldeias Históricas de Portugal – Guia Turístico”. No dia 10 de Junho, terá ao seu dispor duas degustações de produtos regionais (às 11h15 e às 17h30). Ora vejamos este fragmento do guia que nos faz um retrato dos deliciosos sabores trancosenses:


“(…) Trancoso não foge à regra no que diz respeito à sua gastronomia. Com receitas milenares ou conventuais, consegue enfeitiçar qualquer paladar mais caprichoso. Com a colher de pau na mão, vejamos o que esconde o nosso caldeirão: enguias à moda de S. Bartolomeu, fumeiro variado com morcela e chouriços, bola de carne e caldeirada de Cabrito. Que essência extraordinária! Três estalares de dedos, duas pitadas de perlimpimpim e a palavra mágica: Sobremesa! Eis que surgem na mesa as ilustres Sardinhas Doces (originárias do Convento Sta. Clara), uma Bola de Folhas, uma Bola de Ovos (folar), um Bolo de Castanhas e o Doce Lavagas de Sebadelhe da Serra. Será real ou alucinação? Só vai saber se der uma trinca! (…)”, em Aldeias Históricas de Portugal – Guia Turístico, Olho de Turista, 2010, pág. 77

Nas comemorações do dia de Camões, iremos apresentar todo o esplendor da gastronomia da Beira Interior. Além do referido almoço-convívio com um menu tradicional confeccionado pelo restaurante “Quinta da Cerca”, terá ainda a oportunidade de usufruir de vários produtos típicos. Da parte da manhã, poderá apreciar a apetitosa Sardinha Doce da loja Avenida Regional (de Trancoso) e os doces e compotas dos “Sabores da Geninha” (de Figueira de Castelo Rodrigo). De tarde, poderá saborear os enchidos, os fumeiros, os patés e as compotas da “Casa da Prisca” (de Trancoso). No dia de Portugal, seja então testemunha de um acontecimento histórico, cultural e gastronómico!

quarta-feira, 2 de junho de 2010

O CONVENTO DOS FRADES FRANCISCANOS E OS MISTÉRIOS DE TRANCOSO

Esta semana, como não podia deixar de ser, apresentamos-lhe o espaço do duplo evento de 10 de Junho: O Convento dos Frades Franciscanos. Todavia, a cidade de Trancoso é um local repleto de curiosidades e enigmas. Achamos que seria engraçado revelarmos alguns aqui no blog da Aldeia. Acompanhe-nos nesta descoberta dos mistérios trancosenses…


Igreja – Convento dos Frades Franciscanos (séc. XVI, Av. Campo da Feira): Fundado em 1569, era um pequeno convento de seis celas, onde os frades levavam uma vida simples, mas com normas rigorosas, difíceis de compreender aos olhos da comunidade civil e do clero secular. Tal chegou a ser motivo de desentendimentos, levando os freis a abandonarem em definitivo o local. Da sua arquitectura, destaca-se o portal de entrada, de influência renascentista, com colunas toscanas apoiadas por bases de um só toro. Ao lado, observa-se um calvário com três das 14 Cruzes distribuídas pela cidade (Via Sacra). Do convento, ainda resta a torre original e um anexo do séc. XVIII. Foi recentemente requalificado como Auditório Municipal, onde se efectuam as sessões da Assembleia Municipal, entre outras actividades culturais (como o evento Encontro de Bloggers/Lançamento do livro “Aldeias Históricas de Portugal – Guia Turístico”).
Sabia que…

…se pesquisar, existem à volta de 15 localidades com o nome de Trancoso, espalhadas pelo Mundo: Galiza, Brasil e até no México!

… no Canto VI d´Os Lusíadas, Luís Vaz de Camões narrou o episódio dos 12 de Inglaterra. É uma história verídica sobre honra e cavalheirismo, protagonizada por Álvaro Vasques Coutinho, alcunhado “o Magriço” e filho do alcaide de Trancoso.

… depois da grande Batalha de Trancoso (Batalha de S. Marcos), os prisioneiros de guerra foram alimentados a “pão e laranjas”. Para reviver este momento histórico, a 29 de Maio é tradição distribuir esses alimentos às crianças, no próprio planalto onde tudo aconteceu.
… Trancoso possui uma feira que anualmente atrai multidões? É a Feira Franca de S. Bartolomeu, uma das primeiras do País, cuja carta de feira serviu para instituir outros certames como os de Coimbra, Porto ou Viseu. Na Igreja de S. Bartolomeu (hoje capela) decorreram as cerimónias das bodas reais entre D. Dinis e D. Isabel de Aragão.

… nesta cidade, nasceu Gonçalo Anes Bandarra (1500-56): Sapateiro de profissão, era sobretudo conhecido pelas suas profecias. Condenado em vida pela Santa Sé, a concretização das suas profecias, tais como o Sebastianismo e a Restauração da Independência, valeu-lhe o reconhecimento da Casa Real, após a sua morte. Naturais de Trancoso, são também: Gonçalo Fernandes Trancoso (?- 1596), o primeiro grande contista português e Fernando Isaac Cardoso (1615-1683), famoso médico judeu-converso, filósofo, cientista e escritor.

Por último, a curiosidade mais insólita: o Padre Costa de Trancoso teve 299 filhos de 53 mulheres. D. João II perdoou a pesada pena a qual tinha sido condenado.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

A IGREJA DE NOSSA SENHORA DA FRESTA

Caros amigos bloguistas, este mês a Aldeia decidiu juntar-se à Blogagem de Maio com um texto sobre um local de culto, situado numa das 12 famosas aldeias históricas de Portugal. Dessa forma, pretende homenagear não só o dia de Nª. Sª. de Fátima, como também dar-vos um cheirinho do que poderão descobrir no evento do dia 10 de Junho, intitulado “Encontro de Bloggers – Lançamento do livro “Aldeias Históricas de Portugal – Guia Turístico”. Trata-se da Igreja de Nª. Sª. Da Fresta, em Trancoso.

(Igreja de Nª. Sª. da Fresta, em Trancoso. Foto da autoria de Dias dos Reis)

Perto do Castelo de Trancoso, mais propriamente da Porta do “Olhinho do Sol”, entrevê uma paisagem lindíssima. A cerca de 800 metros, vislumbra o cemitério da cidade e ao seu lado: a bela Igreja de Nª. Sª. da Fresta. Reconstruída em 1953, podemos apreciar a sua arquitec¬tura (séc. XII) de estilo românico ogival/gótico, patente nas portas laterais, no arco do transepto e nas frestas. Na porta norte, uma cruz patriarcal (generalizada no séc. XII pelos Cavaleiros do Santo Sepulcro) chama a atenção. A frontaria, a torre sineira e o coro são outras 3 componentes de relevo (acrescentados a quando da reconstrução no séc. XVIII). As cachorradas também são originais, sem falar da impressionante capela-mor com o seu sublime altar. Esta ermida possui uma bonita história:

A Lenda da Ermitoa Iberusa Leoa

Decorria o ano de 711, os árabes conquistavam a Península pela primeira vez. Em Trancoso, a vida seguia o seu rumo… Os habitantes eram há alguns anos devotos da Senhora do Sepulcro. Entretanto, em 985, os mouros invadem esta bela aldeia histórica. Assustado, o povo esconde a imagem da santa numa fresta da sua igreja, camuflando-a bem com tijolo. Ao entrar no templo, os invasores não desconfiam de nada. Em 1033, sob o domínio de Fernando Magno, os trancosenses respiram de alívio e libertam Nª. Sª. do seu esconderijo. A partir daquele instante, apelidaram-na de Nª. Sª. da Fresta e o culto aumentou. Naquela altura, uma donzela chamada Iberusa Leoa venerava fervorosamente a padroeira, dedicando-lhe todo o seu tempo. Mas o emir de Badajoz estava à espreita. Após conquistar Leiria, captura a bela moça. A jovem reza, prometeu total devoção à Santa para proteger a sua virgindade e honra. Em 1131, D. Afonso Henriques retoma Trancoso. Ao assistir a uma missa na Igreja da Senhora da Fresta, fica boquiaberta ao ver à sua frente: Iberusa Leoa, sã e salva pela Virgem. Junto dela, estavam os soldados do soberano árabe, amarrados e atónitos com o sucedido.





quinta-feira, 20 de maio de 2010

ENCONTRO DE BLOGGERS E LANÇAMENTO DO LIVRO “ALDEIAS HISTÓRICAS DE PORTUGAL – GUIA TURÍSTICO”


Amigos bloguistas, a equipa do blog Clube das Mulheres Beirãs está em pulgas. Em Junho, o seu parceiro, o blog da Aldeia da minha Vida festeja o 1º aniversário da primeira blogagem colectiva. Devemos este facto a todos vocês, que mês a mês, participam e dão alento a todas as nossas iniciativas. Daí, decidimos comemorar em grande, organizando um Encontro de Bloggers. Para tal, escolhemos uma data importante: o dia 10 de Junho, Dia de Portugal. Assim, temos não um, mas dois motivos para festejar!
Todavia, na Aldeia da minha vida não fazemos as coisas por menos e acrescentamos mais uma razão para celebrar. Trata-se de algo exclusivo (e revelamos: é o prémio que os vencedores de Abril e os das próximas blogagens irão receber). No intuito de dar valor ao património histórico e cultural português de uma forma refrescante, inovadora e criativa, a Olho de Turista (recente empresa de produção e edição de publicações de informação turística) apresentará no dia 10 de Junho: o primeiro Guia Turístico das Aldeias Históricas de Portugal!!! Esta original obra promove as mais diversas áreas das 12 emblemáticas aldeias: infra-estruturas, recursos turísticos, património, artesanato, produtos típicos, tradições.... Curioso? A partir do dia 10 de Junho, poderá adquiri-lo em diversas bancas lusas.


Entretanto, pode antecipar-se e vir conhecer não só esta novidade literária e cultural, como também toda a equipa da Olho de Turista e Aldeia da Minha Vida. Lançamos então o convite seguinte: Junte-se a nós neste evento especial que decorrerá no Convento dos Frades Franciscanos, na cidade de Trancoso. No programa, constam 3 momentos marcantes: o Encontro de Bloggers (com início às 9h30 da manhã), um almoço-convívio no restaurante “A Cerca” do Hotel Turismo de Trancoso 4* (às 13h00), o lançamento do livro “Aldeias Históricas de Portugal – Guia Turístico” (às 16h00 com conferência de imprensa e inauguração da exposição “Aldeias Históricas de Portugal”) e por fim, um passeio pela bela aldeia histórica de Trancoso. Pelo meio, haverá ofertas de coffee-breaks e degustações de iguarias regionais, de manhã e de tarde.

Nota de extrema importância: O almoço-convívio é buffet e é pago. O preço é de 15€ (com inscrição até dia 2 de Junho). Inclui a refeição (entradas variadas, sopa, cozido à moda de Trancoso, sortido de sobremesas e bebidas, à descrição), os coffee-breaks e as provas gastronómicas. Haverá serviços de baby-sitting e animação infantil (para crianças a partir dos 3 anos; ambos os serviços são gratuitos). O livro “Aldeias Históricas de Portugal – Guia Turístico” estará à venda no local.

O convite é dirigido a todos os bloguistas. Quem desejar estar presente, basta mandar um mail para aminhaldeia@sapo.pt para lhe enviarmos o formulário de inscrição e o programa detalhado. Faça-o com antecedência, pois tem até ao dia 2 de Junho para se inscrever.

Nota1: Os interessados em pernoitar uma ou mais noites no Hotel Turismo de Trancoso 4*, indique-nos essa informação através do mesmo mail. No formulário, constará as ofertas especiais deste estabelecimento hoteleiro.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

“NASCER É SOMENTE COMEÇAR A MORRER”* (Parte III)

(A jovem Cláudia Pais, de 11 anos. Foto cedida por Cristina Pais, a mãe)

O exercício físico é então aconselhável?
Muito. Não se pode é obrigar. Se a criança gostar de algum desporto e se sentir à vontade, devemos incentivar. Com a Cláudia, a natação é essencial e não pode ser praticada numa piscina qualquer, por causa do contacto com a água fria. Em Viseu, só pode nas Termas onde a temperatura da água é de 36/38ºC, a adequada aos ossos. Mas a verdadeira paixão dela é o Ballet. Começou há 4 anos e nunca mais parou. É uma aluna muito aplicada e adora dançar. Alias, se faltar a um dia de aula de Ballet, seja por que motivo for, ela fica aborrecida comigo.

Como reagiu a Cláudia quando lhe contou sobre a doença dela?
Nunca contei, ela foi sabendo e aprendendo ao mesmo tempo do que eu. Apesar dos seus 11 anos, é uma menina muito madura e super inteligente. A doença afecta-lhe o corpo e não a parte cerebral. O desenvolvimento intelectual é perfeitamente normal. Desde o início, acompanha tudo o que se passa com ela e à volta dela. Não gosta de ficar de fora das coisas, sobretudo dos assuntos que lhe dizem respeito. Por vezes, faz perguntas as quais não sei ou não quero responder porque quero que ela viva normalmente como o irmão, e não sobrecarregada de preocupações. Mas ela apercebe-se do que está bem ou mal, está atenta, conseguindo entender e saber de tudo.

E como é ela enquanto criança?
Na escola, ela tem um desenvolvimento regular. É esperta. Neste momento, frequenta o 6º ano. Claro que sou uma mãe babada e orgulhosa. Não é por ser a minha filha, mas a sua simpatia, e sobretudo o seu sorriso, encantam toda a gente. Ela transborda de energia e alegria, o que é contagiante. Adora pintar, dançar, passear ou ir ao cinema com as amigas. É uma grande adepta do Benfica. Mas o jogador que ela admira mais, é o Cristiano Ronaldo. Ah e é fã da gatinha japonesa Hello Kitty.

(Cláudia Pais e o irmão José, ambos de 11 anos. Foto cedida por Cristina Pais, a mãe)

E a relação com o irmão?
Eles só têm 10 meses de diferença, mas é como qualquer outra. Tanto se zangam como cão e gato ou é o amor de perdição. Defendem-se um ao outro, sendo ela a encobrir mais as asneiras dele. Mas ele também é muito protector com ela, às vezes até demais. Ai de quem falar ou fizer mal à irmã! Ela agora anda na fase em que quer mais liberdade. É muito activa e faz parte do carácter dela. Talvez por isso não compreenda, nem aceite de que não pode ser. Outra teima é quando tem de comer sopa de feijão ou lacticínios. Não gosta, não e não e pronto está o caldo entornado!

Ela sorri e a paz volta…
Ui, o sorriso dela! Quando o dia é cinzento, que tudo corre mal ou que se pensa nas muitas batalhas ainda por enfrentar, basta ouvi-la rir, basta vê-la sorrir e tudo passa, tudo vale a pena por mais um sorriso dela.

A Cláudia não pode fazer planos para o futuro, mas tem um sonho…
A vida dela é agarrada por um fio e vivida ao segundo. A única coisa planeada é a estadia de tratamento em Boston, assim como a marcação do tratamento nas Termas de Alcafache. Todavia, a esperança alimenta o sonho. Daí, a Cláudia também tem um: reunir em Portugal, os amigos especiais como ela. Ela já foi a uma reunião a outro país e ficou a imaginar um encontro similar aqui. Mas este sonho envolve uma grande organização e é muito dispendiosa. Ora, para me dedicar a 100% à minha filha, tive de deixar de trabalhar, ficando a receber o rendimento mínimo e um subsídio muito pequeno para a Cláudia. Apesar do valor dos tratamentos e das viagens aos EUA ser financiados pela fundação americana, toda a ajuda é necessária e bem-vinda.

Quem quiser ajudar a Cláudia na realização do seu sonho ou na sua luta contra a doença, pode fazê-lo através de donativos para a conta do banco Santander Totta, em nome de Ana Cristina Sousa Pais e cujo NIB é: 001800031419047402068.


* Citação de Théophile Gautier (séc. XIX), escritor, poeta, jornalista e crítico literário francês.


quarta-feira, 5 de maio de 2010

“NASCER É SOMENTE COMEÇAR A MORRER”* (Parte II)

(a jovem Cláudia Pais, de 11 anos. Foto cedida por Cristina Pais, mãe)

Passam 8 anos até que felizmente descobre um tratamento nos EUA…
Um dia, uma Juíza da Comarca de Viseu interessou-se pelo caso da Cláudia e marcou-me uma consulta na médica dela em Cantanhede que posteriormente me encaminhou para o Prof. Saraiva, da Genética Rara dos Hospitais de Coimbra. Através dele, a Cláudia tornou-se uma das pacientes dum ensaio terapêutico do Children´s Hospital Boston, nos EUA. Vai fazer quase 3 anos que descobrimos que eu não era a única mãe com uma criança tão maravilhosa e especial como a Cláudia. Não estávamos sós nessa batalha. Segundo a Progeria Research Foudation, há conhecimento de 52 crianças espalhadas por 29 países com essa patologia. Em Portugal, a Cláudia era a única a sofrer deste síndrome, mas depois de passarmos numa reportagem televisiva em Novembro de 2008, apareceu o caso de um menino.

Como se passa o tratamento americano?
De 4 em 4 meses, vamos até ao Campus Hospitalar de Boston. O tratamento dura 7 a 15 dias. Uma vez por ano, é mais longo para fazerem o balanço do estado da Cláudia. O objectivo é melhorar a qualidade de vida dela, e sobretudo retardar os sinais do envelhecimento. Por isso, fazemos as duas esta jornada dolorosa e cansativa do hospital ao hotel e vice-versa, não havendo tempo para mais nada. No centro, faz medicação oral e injectável, Tacs e Raios X, exames aos olhos e ouvidos, análises ao sangue e à urina e ressonância magnéticas, fisioterapia... De momento, não há nem cura, nem retrocessos. Porém, sendo um centro de estudo de medicina para qualquer patologia, acredito que um dia, haverá grandes descobertas.

(Children's Hospital, em Boston - Foto retirada da Internet)

Alguns exames são particularmente difíceis para ela…
A maioria. Há o das calorias que eu não conhecia. Na noite de véspera, ela não pode comer nada, só beber água. Às 7h, já estamos no hospital. Deitam-na numa cama com uma espécie de capacete de astronauta. Aí tem de estar muito quietinha durante 4 horas, com a luz apagada, podendo só olhar para o ecrã da televisão. Ela é forte e aguenta. E eu? Não me habituo, estou sempre com um nó de dor ao vê-la ali deitada, frágil e cheia de fome. A minha pequenina acaba até por adormecer. No final, ingere um suplemento líquido doce, geralmente, coca-cola ou ice tea. Mais tarde, almoçamos enfim. Na semana, há um dia inteiro em que está a tirar sangue quase de hora a hora. É um processo longo e demorado. Mas tem de ser…
Pela sua experiência, como descreveria a diferença entre a medicina portuguesa e a americana?
Abismal! Durante 8 anos, a minha filha foi considerada pela medicina portuguesa, uma criança normal. Não havia casos de Progeria, então não investigavam, não estudavam, nem se interessavam… Chamam-na apenas para as consultas de rotina e controlo de peso. Não têm meios técnicos, nem humanos. Vamos a uma consulta e esperamos 6 horas pelo médico que acaba por nos despachar em 5 min., sem nos ouvir ou examinar correctamente. Pela minha experiência de Boston, os utentes são tratados de forma mais humana. Dou dois exemplos: o primeiro centra-se na fisioterapia da Cláudia onde fazem um trabalho mais estudado, específico e dinâmico; até há um profissional que mede o tamanho de cada osso. O segundo: há um espaço chamado “sala de brincar”, onde além de brinquedos, há animadores, pintores, artistas, palhaços que vão lá propositadamente para entreter e descontrair as crianças; todos os funcionários, de recepcionistas a enfermeiros, transbordam sempre de alegria e boa disposição, fazendo com que os miúdos esqueçam por momentos onde estão.

No entanto, em Portugal, existe um lugar onde cuidam bem dela, não é?
As Termas de Alcafache, em Viseu. A terapia natural e termal faz-lhe tão bem que nos EUA ficaram espantados com a flexibilidade dela. Eles não conhecem os nossos bens naturais, nem termas. Pensavam que se tratava de um hotel com SPA. Expliquei-lhes ao pormenor o que ela fazia lá. De Março a Dezembro (fecham Janeiro-Fevereiro), faz lamas para as dores acumuladas nos ossos, em particular na coluna e joelhos onde o desgaste é maior; vapores nos pés e nas mãos por causa da artrite e artrose (ela não gosta nada dessa parte); piscina e hidromassagem para o desenvolvimento da flexibilidade.

Na próxima 4ª, não perca mesmo o final desta emocionante história!

* Citação de Théophile Gautier (séc. XIX), escritor, poeta, jornalista e crítico literário francês.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

“NASCER É SOMENTE COMEÇAR A MORRER”* (Parte I)

(a jovem Cláudia Pais de 11 anos - foto cedida por Cristina Pais, mãe)

Se habitássemos num mundo perfeito: os filhos não poderiam envelhecer antes dos pais. Infelizmente, cada vez mais enfraquecido, o nosso planeta está cheio de mazelas. A medicina trava uma luta contra o tempo, onde a cada hora germina um novo mal por combater… Imagine então o que é ser mãe de uma criança com uma doença invulgar? Ter de entender que o seu bebé vai pular as fases normais do crescimento, à velocidade da luz? É impossível! Inacreditável! No entanto, existe e dá pelo nome de Progeria.
Ainda pouco conhecida, esta doença rara é uma forma de envelhecimento precoce. Denominada na sua forma mais severa de Síndroma de Hutchinson-Gillford, afecta cerca de 1 em 8 milhões de recém-nascidos. A esperança média de vida é de 14 anos (raparigas) e 16 anos (rapazes). Pele enrugada, cataratas, artroses e artrites, são alguns dos indícios das jovens vidas roubadas…

Todos os dias, Cláudia, uma menina natural de Viseu, sobrevive e celebra a vitória contra o tempo. Em teoria, ela sabe o que é a infância e a adolescência. Na prática, o destino pregou-lhe uma partida. Só tem 11 anos, mas fisicamente parece uma linda velhinha de 80. O relógio da vida não lhe deu hipótese de escolha. Porém, é uma criança forte e não vai desistir de lutar tão facilmente. Falamos com a sua maior aliada neste combate quotidiano: Cristina Pais, a mãe.

Aos 15 anos, Cristina já tinha sido mãe do pequeno José, repetindo o feito 10 meses depois com a Cláudia. Ambos os processos de gravidez e parto tinham corrido sem percalços.

Contudo, logo cedo, sente que algo não está bem com a sua filha?
Aos 4 meses e meio de idade, observei perda de peso e queda de cabelo nela. Fiquei um pouco alarmada. Como era um bebé pequenino, pensei que pudesse ser algo normal, ou seja, nunca algo tão sério. Fui ao pediatra, nada detectou. No meu coração, sentia que algo estava errado. Sentia-me impotente, sabia que a Cláudia precisava de ajuda e sozinha não sabia como fazê-lo.

E o que falavam os médicos?
Estavam totalmente no escuro. Desconheciam o que podia ser. Como esses sintomas se acentuaram, voltei ao médico e recorri a mais do que um. Infelizmente, somente aos 2 anos, é realizado o diagnóstico da Progeria. Foram feitos exames atrás de exames com resultados bons ou inconclusivos.

(Cristina Pais, mãe da Cláudia - foto cedida pela própria)

Até que finalmente, surge a confirmação da Progeria?
Sim. Uma altura, a Cláudia já tinha quase 2 anos, lembraram-se de mandar os ditos exames para diversos pontos do país e para o estrangeiro. O diagnóstico chegou: Progeria. Os médicos tentaram explicar-me, mas eles próprios nem sabiam o que era, uma vez que a Cláudia era o primeiro caso a surgir em Portugal.

Como definiria essa doença?
Tudo o que aprendi foi ao pesquisar e ler na Internet e claro depois com a ida aos EUA. Trata-se de uma doença rara de envelhecimento precoce, sem cura e cuja causa ainda é desconhecida. Caracteriza-se geralmente por: baixa estatura e peso, pele seca e enrugada, calvície, olhos proeminentes, tamanho do crânio muito desenvolvido, problemas cardíacos e doenças degenerativas próprias da velhice.

Ou seja, a criança salta a fase do crescimento normal e até das doenças comuns?
Exactamente. Por isso, temos de ter cuidados redobrados com estas crianças porque são como marionetas de corda ou bonecas de porcelana, podendo quebrar de um momento para o outro. Por exemplo, as deslocações ósseas são frequentes. A Cláudia fez uma luxação entre o ombro direito e a coluna, e partiu. Ora, ela não tem gripes ou assim, mas tem quase todas as doenças de que sofrem os idosos: desgaste ósseo, artrose, artrite, osteoporose, carência de cálcio... Outro exemplo: a menstruação. Ela não teve, isto é, passou por ela como o vento. A uma velocidade temporal inimaginável, veio e foi embora. Esta doença consome o corpo muito rapidamente, às vezes em segundos. Hoje, a minha filha pode estar óptima e amanhã piorar.

Não perca mesmo! Na próxima 4ª, saiba tudo sobre o tratamento da Cláudia nos EUA e em Portugal.


* Citação de Théophile Gautier (séc. XIX), escritor, poeta, jornalista e crítico literário francês.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

TRABALHAR, ESTUDAR, LUTAR, MAS NUNCA DESISTIR (parte 3)

(Cortecega - foto cedida por Eugénia Santa Cruz)

E vai parar por aqui?
Não, não. Quero concluir a faculdade para tirar a licenciatura no Curso de Assistente Social. Mas optei por esperar uns 4 anos até as minhas filhas acabarem de tirar os seus cursos. Elas estão em primeiro lugar.
Outro dos meus objectivos é ser voluntária para poder ajudar o próximo. Embora com algumas paragens, já estive na paróquia Algueirão/Mem-Martins como catequista. Nem que seja através de uma visita, de uma pequena conversa, um beijinho a dizer estou aqui, são actos de extrema importância no apoio ao próximo. O sonho de fazer uma missão está presente. Quando as minhas filhas tiveram total autonomia, irei concretizá-lo.

Contudo, já concretizou o maior sonho da sua vida: Ser mãe. E correu riscos para tal?
Na nossa vida, passamos alguma vez por momentos dramáticos que nos marcam e eu não sou excepção. Sempre adorei crianças e queria muito ser mãe. Quando fiquei grávida, foi uma alegria. No terceiro trimestre, as coisas complicaram-se e perdi o bebé. Fui para a maternidade e tive de fazer uma ecografia para ver se o feto tinha saído todo. Eu levava a esperança que tudo não passasse de uma ameaça ou um pesadelo. Quando olhei para o monitor, queria ver o feto. A médica declarou calmamente «Filha, tens de tentar outra vez». Senti-me a pior mulher do mundo por não conseguir salvar o meu bebe. A seguir, tive mais dois abortos. Não desisti e finalmente: gravidez de alto risco! Devido ao insucesso das outras tentativas, o medo estava lá. Sempre que fazia uma ecografia, tinha vontade de ver e receio de ouvir. Tive 8 meses de cama a levar injecções diariamente, mas valeu a pena. Felizmente, a Ana Filipa nasceu saudável e hoje com 20 anos, está no 2º ano de enfermagem. Tenho o privilégio de ter outra linda menina: a Rita Isabel com 17 anos, que está no 11º ano. Ambas são voluntárias na Cooperação de Bombeiros Voluntários de Sintra. Estas princesas são a minha vida!

(Eugénia Santa Cruz - Foto cedida pela própria)

Além do espírito solidário, o que considera importante de transmitir a um filho?
(Embevecida) A amizade e a dádiva são outros valores transmitidos às minhas filhas. Os bens materiais e o estatuto não são os mais importantes. Procurem sempre a felicidade. Em 23 anos de casamento, nem tudo é um mar de rosas, mas a vida pode ser um jardim maravilhoso, se lutarmos por isso no dia-a-dia regando-o diariamente para as plantas crescerem.

É uma mulher lutadora e de fé?
(Olha para o Céu) Sem dúvida. É esta Fé que me guia. Já passei por várias cirurgias, estive nos cuidados intensivos 18 dias, 3 dos quais em semi-coma derivado a uma embolia pulmonar pós-operatória. Mas sou uma pessoa de bem com a vida e agradeço a Deus todos os dias por poder continuar a ver crescer as minhas filhas.
Sobre ter Fé e Esperança, tenho uma história triste mas que hoje me faz rir. Por volta dos meus 15 anos, andava no duro trabalho de picareta na mão a fazer valetas. As minhas mãos estavam a ficar cheias de calos e bolhas. A dor era tanta que até me vinham as lágrimas aos olhos. Então ajoelhei-me na berma da estrada, sozinha olhei para o céu, pedi a Deus que um dia elas me doessem de escrever à máquina. Anos mais tarde fui operada a uma tendinite na mão, uma das causas era de escrever no computador. Esta história além de triste, é engraçada e curiosa. Deixa-me a pensar.

E se essas mãos pudessem falar, diriam: “Graças a nós, esta menina já ganhou prémios!”
(Gargalhada e sorriso ternurento) Pois é. Elas são as minhas aliadas quando deixo fluir a minha paixão pela poesia. Despe pequena, gosto de escrever versos, histórias e contos. Tenho dois pequenos contos de Natal, ambos baseados na experiência beirã e ambos premiados pela Câmara de Sintra, um em 1º lugar, outro em segundo. Escrevo sobre tudo e nada, se estiver inspirada qualquer coisa ou facto serve. A minha própria vida é uma simples história de uma mulher beirã.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

TRABALHAR, ESTUDAR, LUTAR, MAS NUNCA DESISTIR (parte 2)

(Casa-Convívio e Hospedaria de Cortecega, foto cedida por Eugénia Santa Cruz)
*
E veio o suspiro de alívio…
(Ar aliviado) Finalmente, 8 meses depois, contemplamos a nossa morada: 3 quartos, uma sala, cozinha e casa de banho... Foi uma alegria enorme ver o sorriso da minha mãe ao ver que os filhos tinham um quarto e uma casa de banho. Fomos acabando as obras conforme podíamos. Tudo isto foi possível graças à cooperação das pessoas que com a sua boa vontade realizaram o sonho de uma família e de tantas outras.

Parece-me que as pessoas de Cortecega são solidárias e amigas?
(Animada) É verdade. A Beira Interior em si é assim. Mas em Cortecega, o que mais destaco é a bondade das suas gentes, as paisagens, a calma, o cantar dos passarinhos… Ao longo do ano vou várias vezes a minha aldeia, uma vez que não posso viver sem aquele verde, e também porque a Associação Desportiva e Cultural de Cortecega que, também ajudei de alguma forma construir, planeia diversas actividades. Acredito que a minha terra é um exemplo para tantas outras: o seu povo sempre muito divertido e unido, tudo tem feito para que Cortecega tenha as condições necessárias para receber os seus filhos, amigos e visitantes.

(Durante  a concentração de Agosto, fila dos Motards para o almoço; nesse dia, foram servidas 300 refeições; foto cedida por Eugénia Santa Cruz)
*
Como por exemplo?
(Mais animada ainda) O Rancho Folclórico da minha aldeia é um exemplo giro. Percorri uma parte do país no rancho, onde andei dos 7 aos 15 anos. Depois passei para o Grupo de Danças e Cantares do Cadafaz. Ih, mas o melhor são dois grandes convívios: a concentração dos Motards em Agosto e o Almoço da Amizade na Páscoa. Há sempre uma forma de juntar toda a aldeia e os que residem em Lisboa para planear actividades e tudo o que isso implica a nível financeiro, logístico, etc. A Celeste (presidente da Associação) liga-nos e a palavra vai passando. Na véspera conforme vamos chegando de Lisboa e outros sítios, juntamo-nos aos da terra e toca a descascar batatas, limpar, arrumar… No dia D, homens, mulheres e filhos, todos estão a postos às 7 horas na Associação. Quem se atrasar, paga o pequeno-almoço! Depois, cada um sabe o que tem de fazer. É tudo caseiro: a Ilda dá batatas, Irene couves, Helena feijão, Beatriz sobremesas... Todos dão o que tem de cultivo, depois compra-se carne, peixe, enfim o que falta. Todos voluntários, tudo por amor à terra! Percebe agora porque amo tanto a minha terra!

(Almoço da Amizade - foto cedida por Eugénia Santa Cruz)
*
Mas também foi por amor que deixou a sua terra?
(Ar enamorado) Embora já tivesse tido alguns namoricos de aldeia, comecei a namorar aos 15 anos com um jovem do mesmo concelho. Aos 23 anos, casei num belo dia de Outubro de 1986. Mudei-me para Lisboa porque o meu marido é agente da PSP e trabalhava na capital. Compramos casa na zona de Sintra, onde ainda hoje vivemos. É uma zona linda, é um privilégio viver aqui. As saudades da minha terra é que ai Jesus! O silêncio e a liberdade do campo, as pessoas que diziam «Bom dia, tia Maria! Bom dia nos dê Deus, prima!». Mas, já a minha mãe dizia que a mulher e o marido devem estar juntos. Arranjei emprego na embaixada de África do Sul, onde adorei estar. Depois fui chamada para a Câmara de Sintra, na qual entrei em Janeiro de 1989 e onde me encontro até hoje.

E foi a partir desse emprego que realizou um sonho adormecido?
(Sorriso de dever cumprido) Aos 19 anos, consegui um posto na área administrativa da autarquia de Góis. Tinha alcançado esse lugar por mérito próprio, por ser uma boa profissional, dedicada e sempre disposta a aprender mais. Nessa época, já acalentava em mim o objectivo de continuar a estudar. Quando entrei para a Câmara de Sintra, tive conhecimento de uma turma onde se poderia tirar o 5º e 6º ano. Quis logo inscrever-me, mas tive receio uma vez que já era Janeiro e as aulas tinham começado em Outubro. Surgiu a esperança quando me responderam que se conseguisse acompanhar a matéria e tivesse positiva nos testes, seria admitida. Agarrei-me ao estudo com as cópias cedidas pelos colegas e conclui o 6º. No ano seguinte, frequentei algumas unidades do ensino nocturno. No entanto, fiquei grávida e adiei os estudos. Cinco anos depois, conclui o 9º ano no programa Novas Oportunidades. Esperei também que a minha filha mais velha crescesse e pudesse tomar conta da irmã. Assim quando ela tinha 13 anos e o pai já não trabalhava à noite, voltei a escola. No fundo de mim, sentia uma grande paixão pelas formações que envolvem idosos ou crianças. Daí, escolhi o curso tecnológico de Acção Social. Três anos e o diploma nas mãos! Senti-me tão orgulhosa! Profissionalmente, sou uma pessoa realizada, pois trabalho na Divisão de Habitação e Acção Social.

Na próxima 4ª, veja como Eugénia nunca desiste e luta sempre pelos seus sonhos.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

TRABALHAR, ESTUDAR, LUTAR, MAS NUNCA DESISTIR (parte 1)

(Eugénia Santa Cruz - foto cedida pela própria)

O cheiro a mimosa anuncia a Primavera. Os passarinhos cantam. Se não fosse o barulho urbano, poderíamos fechar os olhos, imaginarmo-nos no meio da Serra do Açor e vislumbrar lá do cima a pacata e animada povoação da nossa entrevistada. Quanto olhamos para ela, pensamos: «esta beirã não tem 46 anos. Tem tanta jovialidade! No mínimo, terá 26». Natural de Góis (Distrito de Coimbra), sugerimos a brincar que são os ares beirões, o elixir da eterna juventude. Eugénia Santa Cruz ri-se e entusiasmada fala com paixão da sua aldeia Cortecega.

Como era ser criança em Cortecega?
(Brilho nos olhos) A minha infância foi passada em Cortecega, onde nasci a 9 de Junho de 1963. Fui feliz, recebia dos meus pais muito amor. Aos 6 anos de idade, fui para a escola. Para tal, tinha de percorrer 8 Km todos os dias, uma vez que a minha aldeia ficava a 4 Km da vila onde era a escola primária. Levantava-me muito cedo para ir para a escola e quando regressava, ajudava a minha mãe no campo, guardava o gado, fazia a comida ou limpava a casa. A minha família era pobre, vivia do que a terra dava e daquilo que se ganhava no dia-a-dia, mas nunca passei fome como muita gente passou. Na nossa mesa havia sempre comida, mas lembro-me de a minha mãe estar a espera que todos acabassem de comer para ela comer os restinhos.
Por isso, não foi fácil e comecei a trabalhar muito cedo. Aos 10 anos, quando sai da escola, fui trabalhar para o campo e ao mesmo tempo, aprendia costura, bordados e renda numa costureira que ensinava raparigas. Guardo as melhores recordações desta senhora, a menina Belita, que graças a Deus ainda está junto de nós.
Mas essa escolha de vida não foi sua, pois não?
(Olhar perdido no tempo…) Não. Nesse tempo, era mesmo assim. Nessa época, as raparigas não iam para o ciclo preparatório. Eu chorei muito porque queria estudar. A minha professora da primária até mandou uma carta aos meus pais a dizer que era uma pena não continuar a estudar. Era boa aluna e muito empenhada.

(Cortecega - foto cedida por Eugénia Santa Cruz)

Entretanto, surge uma triste notícia…
(Emociona-se) Sim. O meu pai falece. A minha mãe continuou sozinha o seu papel de mãe e pai, criando 4 filhos: um de 16 anos, eu de 13, outro de 9 e o mais novo de 7 anos. A vida já não era fácil, a partir daí, foi uma luta maior. Comecei a “andar aos dias” para fora, ou seja trabalhar para outrém, em campos, obras, entre outros… Mesmo em tempos adversos, eu era feliz. O meu irmão e eu trabalhávamos muito para o sustento da casa e para ajudar na criação dos dois irmãos mais novos. A minha mãe era muito doente, infelizmente.

A meio da adolescência, dá-se uma espécie de reviravolta…
Por volta dos 14 anos, fui trabalhar para a floresta: plantava pinheiros, limpava as matas e no verão ia juntamente com outras pessoas apagar fogos. Aos 16 anos entrei para a Câmara Municipal de Góis para trabalhar na carpintaria da autarquia: envernizava madeira e tudo o que se relacionava com a mesma. Contudo, fazia mais coisas. Era a mulher de vários ofícios: limpezas e alcatroamento de estradas, criação de valetas com picareta… No final da tarde, lavava a cara com gasóleo para sair o alcatrão, pois ainda ia para a escola tirar um curso de costura que durou 6 meses. Entretanto, como éramos só duas raparigas, o Município transferiu-nos para outra função: responsáveis da limpeza das escolas primárias do concelho. Apesar de tudo, sempre era mais fácil do que as outras tarefas.

Nesse momento, germina uma ideia na sua mente…
(Entusiasmada) Arranjar a casa onde vivíamos! Quando o meu pai faleceu, ficou tudo parado. Na altura, tínhamos algum material, só que teve de ser usado por outras pessoas uma vez que ficamos sem nada. Então, reagi. Não podíamos baixar os braços. A casa era muito velhinha, tinha três divisões em madeira, dois quartos pegados e uma cozinha. As condições de habitabilidade eram más. Estava na hora de começar aquilo que o meu pai não tinha podido acabar.

(A minha casa na terra - foto cedido pela própria)

Aí, arregaçou as mangas e mãos à obra!
(Orgulhosa) Fui falar com o actual presidente da Câmara e pedi ajuda. Contei-lhe a nossa história e como vivíamos. O resultado foi positivo: respondeu que ia fazer tudo o que pudesse. Cheguei a casa, reuni os meus irmãos e mãe para dar a boa nova! A minha mãe começou a chorar com medo de não conseguirmos. Tranquilizei: «Mãe, vais ver que ainda vamos ter um quarto para os manos e outro para nós e uma casa de banho decente!». A casa velha foi deitada abaixo e fomos morar para a garagem de um tio. À noite, os meus irmãos iam dormir para o sótão de outro familiar. As obras iniciaram e todas as pessoas da aldeia ajudaram. A Câmara cedeu transportes para acartar o material e funcionários ao sábado para a cofragem das placas. Simultaneamente, soube de uma instituição americana que dava apoio material. Assim pedi auxílio e foi-nos oferecido azulejos, mosaicos para o chão e louças para a casa de banho.

Foi uma fase angustiante, não?
(Séria) Quando o meu pai morreu a minha irmã já estava casada e vivia em Lisboa, no entanto, dávamo-nos (e damo-nos) todos muito bem. Daí, o meu irmão mais velho e eu trabalhávamos para pagar as letras metidas ao banco para as despesas de pedreiros. O do meio dedicava o seu salário a alimentação da família e o mais novo estava na obra da casa. A minha mãe fazia o que podia. O meu marido, na altura namorado, fez toda a instalação eléctrica. A minha irmã deu as portas interiores da casa e todos os anos em Agosto lá nos encontrava. Por isso, durante o ano, estamos várias vezes juntos. Confesso que com 16 anos foi um fardo pesado para mim. Não queria preocupar a minha doce mãe. Passei algumas noites sem dormir a pensar como pagar os gastos de material, mão-de-obra, gerir o dinheiro porque tinha de ser bem dividido. Graças a Deus, nada ficamos a dever a ninguém, a não ser a nossa gratidão pela ajuda, mas isso não se paga!

Na próxima 4ª, saiba mais sobre essa beirã e a sua aldeia, ambas exemplos a seguir.