quarta-feira, 3 de março de 2010

MARIA MANUELA, A MADRE TERESA BEIRÃ (2ª Parte)

(Maria Manuela Corte Real e as crianças do Bairro Mumemo em momentos de plena felicidade; foto cedida pela própria)

Se estava ainda debilitada, porque trocou uma vida adequada pelo desconhecido?
Ora, em 2004, fechei a creche e decidi ficar livre, ter tempo para mim. A radioterapia (que ainda faço duas vezes por ano) e a medicação, punham-me muito em baixo. Apesar disso, inscrevi-me numa peregrinação à Itália. Nessa viagem, fiquei amiga de um casal português. A esposa acabou por falecer de cancro galopante. Não podia deixar o meu amigo Álvaro sofrer, então tentava animá-lo. Numa jornada à Lourdes, falou-me que as cheias de 2000 em Maputo tinham deixado um rasto de destruição e eram precisos voluntários para ajudar na reconstrução. Acrescentou que se eu fosse, ele iria também. Na reunião com as Irmãs Franciscanas Hospitaleiras de Maputo, responsáveis da missão, comentaram que careciam de alguém com experiência em crianças, jovens mães e creches, e que estivesse disposta a ir para o mato, vivendo debaixo de tendas. Eu, eu, eu! Senti logo que era o meu destino. Um rapaz, engenheiro mecânico com 27 anos, candidatou-se juntamente comigo. As Irmãs informaram-nos que iríamos para um local no mato, cedido pelo Estado, onde estavam famílias inteiras e crianças órfãos. Por isso, pediam encarecidamente voluntários por toda a Europa. Eu, que tomava conta dos meus netos, ia largar tudo para uma realidade incógnita.

Foi fácil partir assim?
Ui, não nada. O incentivo dos meus filhos deu-me coragem: se sentia que a ajuda às crianças moçambicanas era o meu caminho, tinha de segui-lo. Contudo, era necessário passaporte, boletim de saúde em dia e vacinas. Cuidei de tudo, mas no IPO não me queriam deixar ir. Falavam que não tinha defesas suficientes. Na consulta do viajante, perguntaram-me se eu estava boa da cabeça e ciente do que ia fazer. Respondi que não, mas que ia na mesma. Enfiei 7kgs de medicação numa mochila para uma missão de 3 meses. E quem diria, que ia duas vezes ao Bairro Mumemo – Fraternidade São Francisco de Assis! Em 2005 e em 2007.

(Maria Manuela Corte Real no dia dos baptizados dos "seus meninos" de Mumemo; foto cedida pela própria)

Conte-nos tudo sobre essa experiência. O que fez, o que sentiu?
Tanta coisa! Organizei creches, ensinei agricultura e plantação, criação de animais; Assisti partos sem condições mínimas, transmiti hábitos de higiene e comida; mostrei como dar o comer às crianças; até fiz blocos de betão! Construímos a Casa dos Voluntários, com espaços para o banho, fogão, arca frigorífica, beliches… Foi algo de extraordinário na minha vida. Dei e dou muito de mim a eles, à nível pessoal e material. Oh, também dava catequese. Ofereci um terço a cada um. Eles pensavam que era um fio para pôr ao pescoço e andavam então todos com isso.
Em 2007, era o baptizado e casamento de alguns deles e telefonaram-me a dizer que queriam a presença da Mãe Manuela. O Bispo de Maputo também se pronunciou: “Estes 15 jovens solicitam a sua presença”. Só que a minha vida financeira estava complicada. Não baixei os braços: falei com toda a gente. Uma senhora pagou-me a viagem, outra brindou-nos com 80 vestidos de noiva numa mala, sapatos, casacos, calças de noivo… A Cáritas doou 500€ e arranjou forma de eu levar mais 20kg de peso no avião. Levei uma carga enorme. Quando cheguei lá e lhes mostrei tudo, pareciam umas princesas. Nunca tinham tido nem um sutiã. Foi uma alegria inexplicável.
Depois ajudei na construção de dois lares: o masculino e o feminino, com uma ampla cozinha e lavandaria. Divulguei esse feito por toda a região viseense e mandaram-nos lençóis, almofadas, loiças, tudo… e muita coisa da minha casa sobretudo. Até veio um camião com um forno grande, proveniente do Alentejo.

Sustos, teve algum?
Tive um durante a minha 2ª estadia: um princípio de Malária. Não tinha febre alta. Graças aos médicos oriundos da África do Sul, safei-me. Deus também esteve sempre ao meu lado.

E de regresso à Portugal deixou tudo para trás?
Não, nem pensar! Esta causa e todas as pessoas desse bairro passaram a fazer parte de mim. Aqui, no meu País, estou empenhada no Programa de Apadrinhamento de Crianças. Cada padrinho dá 150€ por ano. Como o Mundo está numa fase ingrata de crise, damos outra possibilidade de contribuírem: podem juntar-se em grupos de dois ou três e serem o padrinho de uma criança, assim cada um daria 50€ por ano. Essa quantia é usada nos cuidados alimentares, higiénicos e/ou educativos da criança. Existe lá a Escola de Formação, onde aprendem costura, informática, electricidade, entre outras coisas. Quem quiser, basta ligar-me para o 93 360 47 10. Dou sempre notícias, pois estou em contacto permanente com as Irmãs e os meus meninos. Ah! E hei-de lá voltar!




4 comentários:

Anónimo disse...

Olá!
Não podia deixar de vir ler o fim da entrevista.
Parabéns e muita força Maria Manuela.É de facto,uma mulher incrível.

Beijos
Liliana Rito

Helena Teixeira disse...

Olá Maria Manuela!
Mais uma vez queria agradecer-lhe toda a sua disponibilidade,a sua boa disposição e amizade.
É uma querida e sempre que precisar de algo, conte comigo.

Jocas gordas
Lena

Vieira Calado disse...

Significativas, as imagens!

Beijoca

Eugénia Santa Cruz disse...

Olá querida Manuela!

O dom da dádiva está dentro de todos nós, é nos dado à nascença. Mas, nem todos têm a capacidade de o usar. Graças a deus que ainda existem algumas Manuelas que tudo fazem pelo bem do próximo. Mesmo, que muitas vezes quem mais precisava de apoio são elas próprias. No entanto não desistem! Eu costumo dizer! à sempre alguém pior que nós.
Obrigada Manuela por existir, adorei ler a sua história. Belos testemunhos.
Deus a abençoe.
Eugenia Santa Cruz.